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A CIDADE E AS
SERRAS DE EÇA DE QUEIRÓS
Ø
A
mentalidade ultrapassada dos românticos encontrou
oposição direta na nova visão do mundo dos realistas,
liderados, em Portugal, pelos jovens que estudavam na
Universidade de Coimbra, conduzidos pelas fórmulas
vanguardistas européias como o Evolucionismo de Darwin,
o Socialismo de Proudhon, o Determinismo de Taine e o
Positivismo de Comte.
Ø
Eclode,
então, a chamada Questão Coimbrã, uma árdua luta
artística entre os realistas, conduzidos por Antero de
Quental, e os românticos, representados por Antônio
Feliciano de Castilho.
Ø
A poesia
realista pretendia ser a arma de combate ao espírito
decadente e mórbido do movimento romântico,
percebendo-se a intenção de se engajar aos problemas
sociais e construir uma inquietante manifestação
crítica. O romance e o conto preocupam-se em atacar os
valores institucionais e a burguesia em decadência,
analisando e criticando o casamento em declínio e o
sistema burguês.
Ø
Gustave
Flaubert, criador do romance realista com “Madame
Bovary”, tem em Eça de Queirós um seguidor que, numa
linguagem preciosa e maleável, retrata fielmente a
sociedade portuguesa do século XIX.
Ø
“A cidade
e as serras”, uma das obras primas de Eça de Queirós,
foi publicada em 1901, depois da morte do autor. A
perfeição estilística e a riqueza de detalhes,
características de Eça, levam o leitor a questionar
conjuntamente duas concepções de vida preconizadas no
livro: o campo e a cidade. Grande parte da revisão da
obra foi feita por Ramalho Ortigão, uma vez que Eça de
Queirós já havia sido surpreendido pela morte.
Ø
Os contos
“Suave milagre”, “Adão e Eva no paraíso” e,
principalmente, “Civilização”, considerado a semente de
“A cidade e as serras”, já antecipavam uma postura na
qual se defendia a idéia de que a felicidade estaria na
Natureza. Essa tese de que o homem só é feliz longe da
civilização, na vida simples do campo, distante do
Progresso, da máquina, contém a virada na carreira de
Eça de Queirós, dirigida, a partir daí, na superação da
ironia e sátira dissolvente em prol de uma concepção de
vida mais larga e humanitária, em que a crença substitui
o ceticismo anterior.
Ø
O homem,
esmagado pela Técnica e pelo Progresso, reencontra a
Natureza e outros valores menos sofisticados e
automáticos, defendidos pela gente simples da Serra.
Observado por este prisma, o livro desvia-se para a
defesa da direita, tentando lançar a idéia de que a
esperança há de substituir a descrença, surgindo um
escritor de tom memorialista e idealista, um utópico
pensador que não abre mão de sua perspectiva crítica e
do toque irônico.
Ø
A oposição
feita no livro apresenta-nos a industrializada e
avançada Paris e uma pequena aldeia portuguesa, a
fictícia Tormes, defendendo também uma possibilidade de
que a ligação dos dois mundos, do progresso e da
simplicidade, trariam a solução para os problemas do
homem. A equação: Suma Ciência X Suma Potência = Suma
Felicidade expressa a civilização de Jacinto, personagem
central da obra e de onde parte o conflito, que acaba
por atraído definitivamente pelo campo.
O
ENREDO
Ø
Em “A
cidade e as serras”, José Fernandes narra a
história do amigo e protagonista, o entediado Jacinto
de Tormes. Primeiramente, Zé Fernandes explica como
conheceu Jacinto e criou por ele uma amizade fraternal
em Paris.
Ø
Jacinto
morava no 202 dos Champs-Elysées, onde nascera, e vivia
rodeado de todo conforto. A saída de sua família de
Portugal para a França, ou melhor, de Tormes para Paris,
foi causada pela vontade do seu avô, Jacinto Galião,
que acabaria morrendo de indigestão. O filho Cintinho,
ou o Sombra, une-se, tempos depois, com Teresinha Velho,
vindo a ser pai do Jacinto em questão, o de Tormes, que
nascera três meses depois da morte do pai provocada pela
tuberculose.
Ø
Fidalgo,
inteligente e rico, Jacinto de Tormes detestava o campo.
Colecionador de livros, onde conseguia todo o
conhecimento filosófico de que necessitava, Jacinto
acreditava que “o homem só é superiormente feliz quando
é superiormente civilizado". Já o narrador José
Fernandes era o oposto do que Jacinto acreditava.
Ø
O
hiper-civilizado Jacinto, repleto de um tédio
irremediável, cansado da sua vida civilizada, com idéias
determinadas pela moda filosófica e científica
circulante em Paris, conta a Zé Fernandes sua decisão de
partir para Portugal a fim de reconstruir sua casa em
Tormes, levando para lá todos os confortos encontrados
no Champs-Elysées.
Ø
Em
companhia de Zé Fernandes, lá vai Jacinto de volta à
província natal de sua família, no Minho. No entanto, o
criado Grilo atrapalhou-se com a bagagem e
remeteu-a para Alba de Tormes, na Espanha, fazendo com
que Jacinto chegasse à sua terra só com a roupa do
corpo.
Ø
Começa,
então, o contato de Jacinto com a natureza pela qual se
deixa contagiar lentamente, renovando-se, primeiro
liricamente e, depois, intelectualmente, quando passa a
aplicar seus conhecimentos científicos ao campo.
Ø
A neurose
da civilização vai se dissipando, já que não condiz mais
com o íntimo de seu caráter. Então, Jacinto conhece o
amor por meio de Joaninha, prima de Zé Fernandes,
simples, pura, o que lhe vai completando a felicidade e
cativa-lhe um afeto sincero, anteriormente perdido. Com
as reformas sociais e tecnológicas que vai introduzindo
no campo, a produtividade cresce, enquanto Jacinto
encontra seu caminho: um casamento feliz num cotidiano
campestre e uma “áurea mediocritas” que faz com que o “Príncipe
da Grã-Ventura” abandone, definitivamente, a
mentalidade progressista e artificial parisiense em
favor de uma vida em uma província simples lusitana onde
encontra, finalmente, a paz e o encanto antes perdidos,
ou melhor, a “Suma Felicidade”.
TESTES
1 - (VUNESP/1991)
– A questão a seguir baseia-se no seguinte texto:
Brancas
rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do seu
ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de
líquen e de silvados floridos, avançavam como proas de
galeras enfeitadas; e, de entre as que se apinhavam nos
cimos, algum casebre que para lá galgara, todo
amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros,
sobre as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento
lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a água
sussurrante, a água fecundante… Espertos regatinhos
fugiam, rindo com os seixos, de entre as patas da égua e
do burro ...
(“A cidade
e as serras”- Eça de Queirós)
Ao longo
deste trecho de “A cidade e as serras”, Eça de Queirós
se serve repetidamente da prosopopéia ou personificação,
figura que consiste em atribuir a seres inanimados
qualidades próprias de seres animados (particularmente
qualidades humanas). Releia o trecho e explique o efeito
expressivo das prosopopéias ou personificações na
descrição das serras e de seus acidentes. Apresente uma
passagem do texto para comprovar seu comentário.
Resposta:
A prosopopéia ou personificação é um processo metafórico
que, estabelecendo uma semelhança implícita entre o
inanimado e o que tem “anima” (alma, reveste de
sentimentos, ações ou qualidades humanas os seres ou
objetos: “sólida nudez”, “ventre polido”revelam a
aspereza da paisagem serrana, amenizada pelo
revestimento vegetal – “vestidas de líquen”. O verbo
“avançar”confere à serrania uma imagem de mobilidade,
reforçada pelo verbo “espreitar”, que o autor aplica ao
casebre “amachucado”. Água “sussurrante”, “fecundante”;
“espertas”regatinhas “fugiam”, “rindo”com os seixos;
ribeiras “saltavam”; fios “vibravam” são alguns exemplos
do processo de humanização da natureza de que Eça de
Queirós de vale na composição desse quadro sensível da
paisagem portuguesa.
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