Em 1894 José Veríssimo definiu as
Memórias de um sargento de milícias como romance
de costumes que, pelo fato de descrever lugares e
cenas do Rio de Janeiro no tempo de D. João VI, se
caracterizaria por uma espécie de realismo
antecipado; em conseqüência, falava bem dele, como
homem de um momento dominado pela estética do
Naturalismo.
Praticamente nada
se disse de novo até 1941, quando Mário de Andrade
reorientou a crítica, negando que fosse um
precursor. Seria antes um continuador atrasado, um
romance de tipo marginal, afastado da corrente
média das literaturas, como os de Apuleio e
Petrônio, na Antigüidade, ou o Lazarillo de
Tormes, no Renascimento -, todos com personagens
anti-heróicos que são modalidades de pícaros.
Uma terceira etapa
foi aberta em 1956 por Darcy Damasceno, que abordou
a análise estilística, tendo como pano de fundo uma
excelente rejeição de posições anteriores:
Não há que considerar-se picaresco um livro
pelo fato de nele haver um pícaro mais
adjetival que substantival, mormente se a este
livro faltam as marcas peculiares do gênero
picaresco; nem histórico seria ele, ainda que
certa dose de veracidade haja servido à
criação de tipos ou à evocação de época; menos
ainda realista, quando a leitura mais atenta
nos torna flagrante o predomínio do imaginoso
e do improvisado sobre a retratação ou a
reconstituição histórica.
|
E depois de mostrar
com pertinência como são reduzidas as indicações
documentárias, prefere o designativo de romance de
costumes. (1)
Concordo com estas
opiniões oportunas e penetrantes (infelizmente muito
breves), que podem servir de ponto de partida para o
presente ensaio. A única dúvida seria referente ao
realismo, e talvez nem esta, se Darcy Damasceno
estiver se referindo especificamente ao conceito
usual das classificações literárias, que assim
designam o que ocorreu na segunda metade do século
XIX, enquanto o meu intuito é caracterizar uma
modalidade bastante peculiar, que se manifesta no
livro de Manual Antônio de Almeida.
1. Romance
picaresco?
O ponto de vista
segundo o qual ele é um romance picaresco, muito
difundido a partir de Mário de Andrade (que todavia
não diz bem isto), recebeu um cunho de aparente
rigor da parte de Josué Montello, que pensa ter
encontrado as suas matrizes em obras como La vida
de Lazarillo de Tormes (1554) e Vida y hechos
de Estebanillo González (1645). (2)
Se fosse exato,
estaria resolvido o problema da filiação e, com ele,
grande parte do de caracterização crítica. Mas na
verdade Josué Montello fundou-se numa petição de
princípio, tomando como provado o que restava
provar, isto é, que as Memórias são um
romance picaresco. A partir daí, supervalorizou
algumas analogias fugazes e achou o que tencionava
achar, mas não o que um cotejo objetivo teria
mostrado. De fato, a análise da picaresca espanhola
faz ver que aqueles dois livros nada motivaram de
significativo no de Manuel Antônio de Almeida,
embora seja possível que este haja recebido
sugestões marginais de algum outro romance espanhol
ou feito à maneira dos espanhóis, como ocorreu por
toda a Europa no século XVII e parte do XVIII. O
que se pode fazer de mais garantido é comparar as
características do "nosso memorando" (como diz o
romancista do seu personagem) com as do típico herói
ou anti-herói picaresco, minunciosamente levantadas
por Chandler na sua obra sobre o assunto (3).
Em geral, o próprio
pícaro narra as suas aventuras, o que fecha a visão
da realidade em torno do seu ângulo restrito; e esta
voz na primeira pessoa é um dos encantos para o
leitor, transmitindo uma falsa candura que o autor
cria habilmente e já é recurso psicológico de
caracterização. Ora, o livro de Manuel Antônio é
contado na terceira pessoa por um narrador (ângulo
primário) que não se identifica e varia com
desenvoltura o ângulo secundário -, trazendo-o de
Leonardo Pai a Leonardo Filho, deste ao Compadre ou
à Comadre, depois à Cigana e assim por diante, de
maneira a estabelecer uma visão dinâmica da matéria
narrada. Sob este aspecto o herói é um personagem
como os outros, apesar de preferencial; e não o
instituidor ou a ocasião para instituir o
mundo fictício, como o Lazarillo, Estebanillo,
Guzman de Alfarache, a Pícara Justina ou Gil Braz de
Santilhana.
Em compensação,
Leonardo Filho tem com os narradores picarescos
algumas afinidades: como eles, é de origem humilde
e, como alguns deles, irregular, "filho de uma
pisadela e um beliscão". Ainda como eles é largado
no mundo, mas não abandonado, como foram o Lazarillo
ou o Buscón, de Quevedo; pelo contrário, mal os pais
o deixam o destino lhe dá um pai muito melhor na
pessoa do Compadre, o bom barbeiro que toma conta
dele para o resto da vida e o abriga da adversidade
material. Tanto assim que lhe falta um traço básico
do pícaro: o choque áspero com a realidade, que leva
à mentira, à dissimulação, ao roubo, e constitui a
maior desculpa das "picardias". Na origem o pícaro
é ingênuo; a brutalidade da vida é que aos poucos o
vai tornando esperto e sem escrúpulos, quase como
defesa; mas Leonardo, bem abrigado pelo Padrinho,
nasce malandro feito, como se se tratasse de uma
qualidade essencial, não um atributo adquirido por
força das circunstâncias.
Mais ainda: a
humildade da origem e o desamparo da sorte se
traduzem necessariamente, para o protagonista dos
romances espanhóis e os que os seguiram de perto, na
condição servil. Em algum momento da sua carreira
ele é criado, de tal modo que já se supôs
erradamente que a sua designação proviesse daí -, o
termo "pícaro" significando um tipo inferior de
servo, sobretudo ajudante de cozinha, sujo e
esfarrapado. E é do fato de ser criado que decorre
um princípio importante na estruturação do romance,
pois passando de amo a amo o pícaro vai-se movendo,
mudando de ambiente, variando a experiência e vendo
a sociedade no conjunto. Mas o nosso Leonardo fica
tão longe da condição servil, que o Padrinho se
ofende quando a Madrinha sugere que lhe mande
ensinar um ofício manual; o excelente homem quer
vê-lo padre ou formado em direito, e neste sentido
procura encaminhá-lo, livrando-o de qualquer
necessidade de ganhar a vida. Por isso, nunca
aparece seriamente o problema da subsistência, mesmo
quando Leonardo passa de raspão e quase como jogo
pelo serviço das cozinhas reais, o que o aproximaria
vagamente da condição de pícaro no sentido acima
referido.
Semelhante a vários
pícaros, ele é amável e risonho, espontâneo nos atos
e estreitamente aderente aos fatos, que o vão
rolando pela vida. Isto o submete, como a eles, a
uma espécie de causalidade externa, de motivação que
vem das circunstâncias e torna o personagem um
títere, esvaziado de lastro psicológico e
caracterizado apenas pelos solavancos do enredo. O
sentimento de um destino que motiva a conduta é vivo
nas Memórias, onde a Comadre se refere à
sina que acompanha o afilhado, acumulando
contratempos e desmanchando a cada instante as
combinações favoráveis.
Como os pícaros,
ele vive um pouco ao sabor da sorte, sem plano nem
reflexão; mas ao contrário deles nada aprende com a
experiência. De fato, um elemento importante da
picaresca é essa espécie de aprendizagem que
amadurece e faz o protagonista recapitular a vida à
luz de uma filosofia desencantada. Mais coerente
com a vocação de fantoche, Leonardo nada conclui,
nada aprende; e o fato de ser o livro narrado na
terceira pessoa facilita esta inconsciência, pois
cabe ao narrador fazer as poucas reflexões morais,
no geral levemente cínicas e em todo o caso
otimistas, ao contrário do que ocorre com o sarcasmo
ácido e o relativo pessimismo dos romances
picarescos. O malandro espanhol termina sempre, ou
numa resignada mediocridade, aceita como abrigo
depois de tanta agitação, ou mais miserável do que
nunca, no universo do desengano e da desilusão, que
marca fortemente a literatura espanhola do Século de
Ouro.
Curtido pela vida,
acuado e batido, ele não tem sentimentos, mas apenas
reflexos de ataque e defesa. Traindo os amigos,
enganando os patrões, não tem linha de conduta, não
ama e, se vier a casar, casará por interesse,
disposto inclusive às acomodações mais foscas, como
o pobre Lazarillo. O nosso Leonardo, embora
desprovido de paixão, tem sentimentos mais sinceros
neste terreno, e em parte o livro é a história do
seu amor cheio de obstáculos pela sonsa Luisinha,
com quem termina casado, depois de promovido,
reformado e dono de cinco heranças que lhe vieram
cair nas mãos sem que movesse uma palha. Não sendo
nenhum modelo de virtude, é leal e chega a
comprometer-se seriamente para não lesar o malandro
Teotônio. Um antipícaro, portanto, nestas e outras
circunstâncias, como a de não procurar e não agradar
os "superiores", que constituem a meta suprema do
malandro espanhol.
Se o protagonista
for assim, é de esperar que o livro, tomado no
conjunto, apresente a mesma oscilação de algumas
analogias e muitas diferenças em relação aos
romances picarescos.
Estes são dominados
pelo senso do espaço físico e social, pois o pícaro
anda por diversos lugares e entra em contacto com
vários grupos e camadas, não sendo raros os destinos
internacionais, como o do "galego-romano"
Estebanillo. O fato de ser um aventureiro
desclassificado se traduz pela mudança de condição,
cujo tipo elementar, estabelecido no primeiro em
data, o Lazarillo de Tormes, é a mudança de
patrões. Criado de mendigo, criado de escudeiro
pobre, criado de padre, o pequeno vagabundo percorre
a sociedade, cujos tipos vão surgindo e se
completando, de maneira a tornar o livo uma sondagem
dos grupos sociais e seus costumes -, coisa que
prosseguiu na tradição do romance picaresco, fazendo
dele um dos modelos da ficção realista moderna.
Embora defomado pelo ângulo satírico, o seu ponto de
vista descobre a sociedade na variação dos lugares,
dos grupos, das classes -, estas, vistas
freqüentemente das inferiores para as superiores, em
obediência ao sentido da eventual ascensão do
pícaro. Nessa lenta panorâmica, um moralismo
corriqueiro para terminar, mas pouca ou nenhuma
intenção realmente moral, apesar dos protestos
constantes com que o narrador procura dar um cunho
exemplar às suas malandragens. E em relação às
mulheres, acentuada misoginia. Embora não sejam
licenciosos, como também não são sentimentais, os
romances picarescos são freqüentemente obscenos e
usam à vontade o palavrão, em correspondência com os
meios descritos.
O livro de Manuel
Antônio é de vocabulário limpo, não tem
qualquer baixeza de expressão e, quando entra pela
zona da licenciosidade, é discreto, ou de tal modo
caricatural que o elemento irregular se desfaz em
bom humor -, como é notadamente o caso da seqüência
que narra o infortúnio do padre surpreendido em
trajes menores no quarto da Cigana. Mas vimos que
tem uma certa tintura de sentimento amoroso, apesar
de descrito com ironia oportuna; e a sátira, visível
por todo ele, nunca abrange o conjunto da sociedade,
pois ao contrário da picaresca o seu campo é
restrito.
2. Romance
malandro
Digamos então que
Leonardo não é um pícaro, saído da tradição
espanhola; mas o primeiro grande malandro que entra
na novelística brasileira, vindo de uma tradição
quase folclórica e correspondendo, mais do que se
costuma dizer, a certa atmosfera cômica e
popularesca de seu tempo, no Brasil. Malandro que
seria elevado à categoria de símbolo por Mário de
Andrade em Macunaíma (4) e que Manuel Antônio
com certeza plasmou espontaneamente, ao aderir com a
inteligência e a afetividade ao tom popular das
histórias que, segundo a tradição, ouviu de um
companheiro de jornal, antigo sargento comandado
pelo major Vidigal de verdade.
O malandro, como o
pícaro, é espécie de um gênero mais amplo de
aventureiro astucioso, comum a todos os folclores.
Já notamos, com efeito, que Leonardo pratica a
astúcia pela astúcia (mesmo quando ela tem por
finalidade safá-lo de uma enrascada), manifestando
um amor pelo jogo-em-si que o afasta do pragmatismo
dos pícaros, cuja malandragem visa quase sempre ao
proveito ou a um problema concreto, lesando
freqüentemente terceiros na sua solução. Essa
gratuidade aproxima "o nosso memorando" do
trickster imemorial, até de suas encarnações
zoomórficas - macaco, raposa, jabuti -, dele
fazendo, menos um "anti-herói" do que uma criação
que talvez possua traços de heróis populares, como
Pedro Malasarte. É admissível que modelos eruditos
tenham influído em sua elaboração; mas o que parece
predominar no livro é o dinamismo próprio dos
astuciosos de história popular. Por isso, Mário de
Andrade estava certo ao dizer que nas Memórias
não há realismo em sentido moderno; o que nelas se
acha é algo mais vasto e intemporal, próprio da
comicidade popularesca.
Esta costela
originalmente folclórica talvez explique certas
manifestações de cunho arquetípico -, inclusive o
começo pela frase padrão dos contos da carochinha:
"Em no tempo do Rei". Ao mesmo universo pertenceria
a constelação de fadas boas (Padrinho e Madrinha) e
a espécie de fada agourenta que é a Vizinha, todos
cercando o berço do menino e servindo aos desígnios
da sorte, a "sina" invocada mais de uma vez no curso
da narrativa. Pertenceria também o anonimato de
vários personagens, importantes e secundários,
designados pela profissão ou a posição no grupo, o
que de um lado os dissolve em categorias sociais
típicas, mas de outro os aproxima de paradigmas
lendários e da indeterminação da fábula, onde há
sempre "um rei", "um homem", "um lenhador", "a
mulher do soldado" etc. Pertenceria, ainda, o major
Vidigal, que por baixo da farda historicamente
documentada é uma espécie de bicho-papão, devorador
da gente alegre. Pertenceria, finalmente, a curiosa
duplicação que estabelece dois protagonistas,
Leonardo Pai e Leonardo Filho, não apenas
contrastando com a forte unidade estrutural dos
anti-heróis picarescos (ao mesmo tempo nascedouros e
alvos da narrativa), mas revelando mais um laço com
os modelos populares.
Com efeito, pai e
filho materializam as duas faces do trickster:
a tolice, que afinal se revela salvadora, e a
esperteza, que muitas vezes redunda em desastre, ao
menos provisório. Sob este aspecto, o meirinho meio
bobo que acaba com a vida em ordem, e seu filho
esperto que por pouco se enrosca, seriam uma espécie
de projeção invertida, no plano das aventuras, da
família didática de Bertoldo, que Giulio Cesare
Della Croce e seguidores popularizaram a partir da
Itália desde o século XVI, inspirados em remotas
fontes orientais. Não custa dizer que nos catálogos
de livraria do tempo de Manuel Antônio aparecem
várias edições e arranjos da famosa trempe, como:
Astúcias de Bertoldo; Simplicidadesde Bertoldinho,
filho do sublime e astuto Bertoldo, e agudas
respostas de Marcolfa, sua mãe; Vida de Cacasseno,
filho do simples Bertoldinho e neto do astuto
Bertoldo. Nas Memórias de um sargento de
milícias, livro culto e ligado apenas
remotamente a arquétipos folclóricos, simplório é o
pai e esperto é o filho, não havendo além disso
qualquer vestígio de adivinhação gnômica, própria da
série dos Bertoldos e d'A Donzela Teodora,
outra sabe-tudo muito viva em nosso populário.
Como não há motivo
para contestar a tradição, segundo a qual a matéria
do livro foi dada, ao menos em parte, pelos relatos
de um velho sargento de polícia, (5) podemos admitir
que o primeiro nível de estilização consistiu, da
parte do romancista, em extrair dos fatos e das
pessoas um certo elemento de generalidade, que os
aproximou dos paradigmas subjacentes às narrativas
folclóricas. Assim, por exemplo, um determinado
oficial de justiça, chamado ou não Leonardo Pataca,
foi desbastado, simplificado, reordenado e submetido
a uma cunhagem fictícia, que o afastou da sua carne
e do seu osso, para transformá-lo em ocorrência
particular do amoroso desastrado e, mais longe, do
bobalhão universal das piadas. Noutras palavras, a
operação inicial do ficcionista teria consistido em
reduzir os fatos e os indivíduos a situações e tipos
gerais, provavelmente porque o seu caráter popular
permitia lançar uma ponte fácil para o universo do
folclore, fazendo a tradição anedótica assumir a
solidez das tradições populares.
Poderíamos, então,
dizer que a integridade das Memórias é feita
pela associação íntima entre um plano voluntário (a
representação dos costumes e cenas do Rio) e um
plano talvez na maior parte involuntário (traços
semi-folclóricos, manifestados sobretudo no teor dos
atos e das peripécias). Como ingrediente, um
realismo espontâneo e corriqueiro, mas baseado na
intuição da dinâmica social do Brasil na primeira
metade do século XIX. E nisto reside provavelmente
o segredo da sua força e da sua projeção no tempo.
Há também, é claro,
eventuais influências eruditas e traços que o
aparentam às correntes literárias que, naquele
momento, formavam com as tendências peculiares ao
Romantismo um desenho mais complicado do que parece
a quem ler as classificações esquemáticas. Por este
lado é que ele se entronca em linhas de força da
literatura brasileira de então, que o esclarecem
tanto ou mais do que a invocação de modelos
estrangeiros e mesmo de um substrato popularesco.
De fato, para
compreender um livro como as Memórias convém
lembrar a sua afinidade com a produção cômica e
satírica da Regência e primeiros anos do Segundo
Reinado -, no jornalismo, na poesia, no desenho, no
teatro. Escritas de 1852 a 1853, elas seguem uma
tendência manifestada desde o decênio de1830, quando
começam a florescer jornalzinhos cômicos e
satíricos, como O Carapuceiro, do Padre Lopes
Gama (1832-34; 1837-43; 1847) e O Novo
Carapuceiro, de Gama e Castro (1841-42). Ambos
se ocupavamm de análise política e moral por meio da
sátira dos costumes e retratos de tipos
característicos, dissolvendo a individualidade na
categoria, como tende a fazer Manuel Antônio. Esta
linha que vem de La Bruyère, mas também do nosso
velho poema cômico, sobretudo do exemplo de Nicolau
Tolentino, manifestava-se ainda na verdadeira mania
do retrato satírico, descrevendo os tipos da vida
quotidiana, que, sob o nome de "fisiologia"(por
"psicologia"), pupulou na imprensa francesa entre
1830 e 1850 e dela passou à nossa. Embora Balzac a
tenha cultivado com grande talento, não é preciso
recorrer à sua influência, como faz um estudioso
recente(6), para encontrar a fonte eventual de uma
moda que era pão quotidiano dos jornais.
Pela mesma altura,
surge a caricatura política, nos primeiros desenhos
de Araújo Porto-Alegre (1837) (7), e de 1838 a 1849
desenvolve-se a atividade de Martins Pena, cuja
concepção da vida e da composição literária se
aproxima da de Manuel Antônio -, com a mesma leveza
de mão, o mesmo sentido penetrante dos traços
típicos, a mesma suspensão de juízo moral. O amador
de teatro que foi o nosso romancista não poderia ter
ficado à margem de uma tendência tão bem
representada; e que apareceria ainda, modestamente,
na obra novelística e teatral de Joaquim Manuel de
Macedo, cheia de infra-realismo e caricatura.
Os próprios poetas,
que hoje consideramos uma série plangente de
carpidores, fizeram poesia cômica, obscena e maluca,
por vezes com bastante graça, como Laurindo Rabelo e
Bernardo Guimarães, cujas produções neste setor
chegaram até nós. Álvares de Azevedo foi poeta
divertido, e alguns retardatários mantinham a
tradição bem humorada da velha sátira social, como é
o caso d'A festa de Baldo (1847), de Álvaro
Teixeira de Macedo, cuja linguagem enferrujada não
abafa inteiramente um discernimento saboroso dos
costumes provincianos.
3. Romance
documentário?
Dizer que o livro
de Manuel Antônio de Almeida é eminentemente
documentário, sendo reprodução fiel da sociedade em
que a ação se desenvolve, talvez seja formular uma
segunda petição de princípio -, pois restaria
provar, primeiro, que reflete o Rio joanino;
segundo, que a este reflexo deve o livro a sua
característica e o seu valor.
O romance de tipo
realista, arcaico ou moderno, comunica sempre uma
certa visão da sociedade, cujo aspecto e significado
procura traduzir em termos de arte. É mais duvidoso
que dê uma visão informativa, pois geralmente só
podemos avaliar a fidelidade da representação
através de comparações com os dados que tomamos a
documentos de outro tipo. Isto posto, resta o fato
que o livro de Manuel Antônio sugere a presença viva
de uma sociedade que nos parece bastante coerente e
existente, e que ligamos à do Rio de Janeiro do
começo do século XIX, tendo Astrojildo Pereira
chegado a compará-lo às gravuras de Debret, como
força representativa (8).
No entanto, o
panorama que ele traça não é amplo. Restrito
espacialmente, a sua ação decorre no Rio, sobretudo
no que são hoje as áreas centrais e naquele tempo
constituíam o grosso da cidade. Nenhum personagem
deixa o seu âmbito e apenas uma ou duas vezes o
autor nos leva ao subúrbio, no episódio do Caboclo
do Mangue e na festa campestre da família de
Vidinha.
Também socialmente
a ação é circunscrita a um tipo de gente livre
modesta, que hoje chamaríamos pequena burguesia.
Fora daí, há uma senhora rica, dois padres, um chefe
de polícia e, bem de relance, um oficial superior e
um fidalgo, através dos quais vislumbramos o mundo
do Paço. Este mundo novo, despencado recentemente
na capital pacata do Vice-Reinado, era então a
grande novidade, com a presença do rei e dos
ministros, a instalação cheia de episódios entre
pitorescos e odiosos de uma nobreza e uma burocracia
transportadas nos navios da fuga, entre máquinas e
caixotes de livros. Mas dessa nota viva e saliente,
nem uma palavra; é como se o rio continuasse a ser a
cidade do vice-rei Luis de Vasconcelos e Sousa.
Havia, porém, um
elemento mais antigo e importante para o quotidiano,
que formava a maior parte da população e sem o qual
não se vivia: os escravos. ora, como nota Mário de
Andrade, não há 'gente de cor", no livro -, salvo as
baianas da procissão dos Ourives, mero elemento
decorativo, e as crias da casa de Dona Maria,
mencionadas de passagem para enquadrar o Mestre de
Reza. Tratado como personagem, apenas o pardo
livre Chico-Juca, representante da franja de
desordeiros e marginais que formavam boa parte da
sociedade brasileira.
Documentário
restrito, pois, que ignora as camadas dirigentes, de
um lado, as camadas básicas, de outro. Mas talvez o
problema deva ser proposto noutros termos, sem
querer ver a ficção como duplicaçào -, atitude
freqüente na crítica naturalista que tem inspirado a
maior parte dos comentários sobre as Memórias,
e que tinha do realismo uma concepção que se
qualificaria de mecânica.
Na verdade, o que
interessa à análise literária é saber, neste caso,
qual a função exercida pela realidade social
historicamente localizada para constituir a
estrutura da obra -, isto é, um fenômeno que se
poderia chamar de formalização ou redução estrutural
dos dados externos.
Para isso, devemos
começar verificando que o romance de Manuel Antônio
de Almeida é constituído por alguns veios
descontínuos, mas discerníveis, arranjados de
maneira cuja eficácia varia: (1) os fatos narrados,
envolvendo os personagens; (2) os usos e costumes
descritos; (3) as observações judicativas do
narrador e de certos personagens. Quando o autor os
organiza de modo integrado, o resultado é
satisfatório e nós podemos sentir a realidade.
Quando a integração é menos feliz, parece-nos ver
uma justaposição mais ou menos precária de elementos
não suficientemente fundidos, embora interessantes e
por vezes encantadores como quadros isolados. Neste
último caso é que os usos e costumes aparecem como
documento, prontos para a ficha dos
folcloristas, curiosos e praticantes da petite
histoire.
É o que ocorre,
por exemplo, no capítulo 17 da 1ª Parte, "Dona
Maria", onde reina a desintegração dos elementos
constitutivos. Temos nele uma descrição de costumes
(procissão dos Ourives); o retrato físico e moral de
um novo personagem, que dá nome ao capítulo; e a
ação presente, que é o debate sobre o menino
Leonardo, com participação de Dona Maria, do
Compadre, da Vizinhança. Apesar de interessante,
tudo nele está desconexo. A procissão descrita
previamente como foco autônomo de interesse não é a
procissão-fato, isto é, uma determinada procissão,
concreta, localizada, pormenorizada e fazendo parte
da narrativa. Embora se vincule à ação presente,
ela só aparece um instante, no fim; o que domina o
capítulo é a procissão-uso, a procissão
indeterminada, com o caráter de informe pitoresco,
do tipo daqueles que geralmente se consideram como
constituindo a força de Manuel Antônio, quando na
verdade são o ponto fraco da sua composição.
Mas se recuarmos
até o capítulo 15 da mesma parte, veremos coisa
diversa. Trata-se da "Estralada", a divertida festa
de aniversário da Cigana, que Leonardo Pai
atrapalha, pagando o capoeira Chico-Juca para
estabelecer a desordem e denunciando tudo
previamente ao Vidigal, que intervém e torna público
o pecado do Mestre de Cerimônias.
Neste capítulo
surge mais de um elemento documentário,
inclusive a capoeiragem, associada ao retrato físico
e moral do capoeira e a uma seqüência de fatos. Mas
aí o documento não existe em si, como no caso
anterior: é parte constitutiva da ação, de maneira
que nunca parece que o autor esteja informando ou
desviando a nossa atenção para um traço da
sociedade. Dentro das normas tradicionais de
composição, a que obedece Manuel Antônio, o segundo
caso está certo; o primeiro, senão errado,
imperfeito, por motivos de natureza estrutural.
A força de
convicção do livro depende pois essencialmente de
certos pressupostos de fatura, que ordenam a camada
superficial dos dados. Estes precisam ser
encarados como elementos de composição, não como
informes proporcionados pelo autor, pois neste caso
estaríamos reduzindo o romance a uma série de
quadros descritivos dos costumes do tempo.
O livro de Manuel
Antônio correu este risco. O critério sugerido
acima permite lê-lo de modo esclarecedor, mostrando
que talvez se tenha ido consolidando como romance à
medida que deixava de ser uma coleção de tipos
curiosos e usos pitorescos, que predominam na metade
inicial. É possível e mesmo provável que a redação
tenha sido feita aos poucos, para atender à
publicação seriada; (9) e que o senso da unidade
fosse aumentando progressivamente, à medida que a
linha mestra do destino do "memorando" se
consolidava, emergindo da poeira anedótica. Por
isso, a primeira metade tem mais o aspecto de
crônica, enquanto a segunda é mais romance,
fortalecendo a anterior, preservando o colorido e o
pitoresco da vida popular, sem situá-la, todavia,
num excessivo primeiro plano.
Esta dualidade de
etapas (que são como duas ordens narrativas
coexistentes) fica esclarecida se notarmos que na
primeira metade Leonardo Filho ainda não se
desprendeu da nebulosa dos demais personagens e que
o romance pode ser considerado como tendo ele e o
pai por principais figurantes. Os fatos relativos a
um e outro, mais aos personagens que estão agregados
diretamente a eles, correm como paralelas
alternadas, enquanto a partir do capítulo 28 a linha
do filho domina absolutamente e a narrativa,
superando as descrições estáticas, amaina a inclusão
freqüente de usos e costumes, dissolvendo-os na
dinâmica dos acontecimentos.
Sendo assim, é
provável que a impressão de realidade comunicada
pelo livro não venha essencialmente dos informes,
aliás relativamente limitados, sobre a sociedade
carioca do tempo do Rei Velho. Decorre de uma visão
mais profunda, embora instintiva, da função, ou
"destino" das pessoas nessas sociedades; tanto assim
que o real adquire plena força quando é parte
integrante do ato e componente das situações.
Manuel Antônio, apesar da sua singeleza, tem uma
coisa em comum com os grandes realistas: a
capacidade de intuir, além dos fragmentos descritos,
certos princípios constitutivos da sociedade -,
elemento oculto que age como totalizador dos
aspectos parciais.
4. Romance
representativo
A natureza popular
das Memórias de um sargento de milícias é um
dos fatores do seu alcance geral e, portanto, da
eficiência e durabilidade com que atua sobre a
imaginação dos leitores. Esta reage quase sempre ao
estímulo causado por situações e personagens de
cunho arquetípico, dotados da capacidade de
despertar ressonância. Mas além deste tipo de
generalidade, há outro que o reforça e ao mesmo
tempo determina, restringindo o seu sentido e
tornando-o mais adequado ao âmbito específico do
Brasil. Noutras palavras: há no livro um primeiro
estrato universalizador, onde fermentam arquétipos
válidos para a imaginação de um amplo ciclo de
cultura, que se compraz nos mesmos casos de
tricksters ou nas mesmas situações nascidas do
capricho da "sina"; e há um segundo estrato
universalizador de cunho mais restrito, onde se
encontram representações da vida capazes de
estimular a imaginação de um universo menor dentro
deste ciclo: o brasileiro.
Nas Memórias,
o segundo estrato é constituído pela dialética
da ordem e da desordem, que manifesta concretamente
as relações humanas no plano do livro, do qual forma
o sistema de referência. O seu caráter de princípio
estrutural, que gera o esqueleto de sustentação, é
devido à formalização estética de circunstâncias de
caráter social profundamente significativas como
modos de existências que por isso contribuem para
atingir essencialmente os leitores.
Esta afirmativa só
pode ser esclarecida pela descrição do sistema de
relações dos personagens, que mostra: (1) a
construção, na sociedade descrita pelo livro, de uma
ordem comunicando-se com uma desordem que a cerca de
todos os lados; (2) a sua correspondência profunda,
muito mais que documentária, a certos aspectos
assumidos pela relação entre a ordem e a desordem na
sociedade brasileira da primeira metade do século
XIX.
Veremos então que,
embora elementares como concepção de vida e
caracterização dos personagens, as Memórias
são um livro agudo como percepção das relações
humanas tomadas em conjunto. Se não teve
consciência nítida, é fora de dúvida que o autor
teve maestria suficiente para organizar um certo
número de personagens segundo intuições adequadas da
realidade social.
Tomemos como base o
personagem central do livro, Leonardo Filho,
imaginando que ocupa no respectivo espaço uma
posição também central; à direita está sua mãe, à
esquerda seu pai, os três no mesmo plano. Com um
mínimo de arbítrio podemos dispor os demais
personagens, mesmo alguns vagos figurantes, acima e
abaixo desta linha equatorial por eles formada.
Acima estão os que vivem segundo as normas
estabelecidas, tendo no ápice o grande representante
delas, major Vidigal; abaixo estão os que vivem em
oposição ou pelo menos integração duvidosa em
relação a elas. Poderíamos dizer que há, deste modo,
um hemisfério positivo da ordem e um hemisfério
negativo da desordem, funcionando como dois ímãs que
atraem Leonardo, depois de terem atraído seus pais.
A dinâmica do livro pressupõe uma gangorra dos dois
pólos, enquanto Leonardo vai crescendo e
participando ora de um, ora de outro, até ser
finalmente absorvido pelo pólo convencionalmente
positivo.
Sob este aspecto,
pai, mãe e filho são três nódulos de relações,
positivas (pólo da ordem) e negativas
(pólo da desordem), sendo que os dois primeiros
constituem uma espécie de prefiguração do destino do
terceiro. Leonardo Pataca, o pai, faz parte da
ordem, como oficial de justiça; e apesar de
ilegítima, sua relação com Maria da Hortaliça é
habitual e quase normal segundo os costumes do tempo
e da classe. Mas depois de abandonado por ela, entra
num mundo suspeito por causa do amor pela Cigana,
que o leva às feitiçarias proibidas do Caboclo do
Mangue, onde o major Vidigal o surpreende para
metê-lo na cadeia. Ainda por causa da Cigana
promove o sarilho em sua festa, contratando o
desordeiro Chico-Juca, o que motiva nova intervenção
de Vidigal e expõe a vergonha pitoresca de um padre,
o Mestre de Cerimônias. Mais tarde a Cigana passa a
viver com Leonardo Pataca, até que finalmente, já
maduro, ele forme com a filha da Comadre, Chiquinha,
um casal estável, embora igualmente desprovido de
bênção religiosa, como (repitamos) podia ser quase
normal naquele tempo entre as camadas modestas.
Assim, Leonardo Pai, representante da ordem, desce a
sucessivos círculos da desordem e volta em seguida a
uma posição relativamente sancionada, tangido pelas
intervenções pachorrentas e brutais do major Vidigal
-, personagem que existiu e deve ter sido
fundamental numa cidade onde, segundo um observador
da época, "há que evitar sair sozinho à noite e ser
mais atento à sua segurança do que em qualquer outra
parte, porque são freqüentes os roubos e crimes,
apesar de a polícia ser lá tão encontradiça como
areia do mar". (10)
A vida de Leonardo
Filho será igualmente uma oscilaçao entre os dois
hemisférios, com maior variedade de situações.
Se analisarmos o
sistema de relações em que está envolvido, veremos
primeiro a atuação dos que procuram encaminhá-lo
para a ordem: seu padrinho, o Compadre; sua
madrinha, a Comadre. Através deles, entra em
contacto com uma senhora bem posta na vida, Dona
Maria, que se liga por sua vez a um próspero
intrigante, José Manuel, acolitado pelo cego que
ensina doutrina às crianças, o Mestre de Reza; que
se liga sobretudo à sobrinha Luisinha, herdeira
abastada e futura mulher de Leonardo, depois de um
primeiro casamento com o dito José Manuel. Estamos
no mundo das alianças, das carreiras, das heranças,
da gente de posição definida; em nível modesto, o
Padrinho barbeiro e a Vizinha; em nível mais
elevado, Dona Maria. Todos estão do lado positivo
que a polícia respeita e cujas festas o major
Vidigal não vai rondar.
Vista deste ângulo,
a história de Leonardo Filho é a velha história do
herói que passa por diversos riscos até alcançar a
felicidade, mas expressa segundo uma constelação
social peculiar, que a transforma em história do
rapaz que oscila entre a ordem estabelecida e as
condutas transgressivas, para finalmente
integrar-se na primeira, depois de provido da
experiência das outras. O cunho especial do livro
consiste numa certa ausência de juízo moral e na
aceitação risonha do "homem como ele é", mistura de
cinismo e bonomia que mostra ao leitor uma relativa
equivalência entre o universo da ordem e o da
desordem; entre o que se poderia chamar
convencionalmente o bem e o mal.
Na construção do
enredo esta circunstância é representada
objetivamente pelo estado de espírito com que o
narrador expõe os momentos de ordem e de desordem,
que acabam igualmente nivelados ante um leitor
incapaz de julgar, porque o autor retirou qualquer
escala necessária para isto. Mas há algo mais
profundo, que ampara as camadas superficiais de
interpretação: a equivalência da ordem e da desordem
na própria economia do livro, como se pode verificar
pela descrição das situações e das relações.
Tomemos apenas dois exemplos.
Leonardo gosta de
Luisinha desde menino, desde o belo episódio do
"Fogo no Campo', quando vê o seu rostinho acanhado
de roceira transfigurado pela emoção dos rojões
coloridos. Mas como as circunstâncias (ou, nos
termos do livro, a "sina") a afastam dele para o
casamento convencional com José Manuel, ele, sem
capacidade de sofrer (pois ao contrário do que diz o
narrador não tem a fibra amorosa do pai), passa
facilmente a outros amores e à encantadora Vidinha.
Esta lembra, pela espontaneidade dos costumes, a
moreninha "amigada" com o tropeiro, que amenizou a
estadia do mercenário alemão Schlichthorst no Rio
daquele tempo, cantando modinhas sentada na esteira,
junto com a mãe complacente(11).
Luisinha e Vidinha
constituem um par admiravelmente simétrico. A
primeira, no plano da ordem, é a mocinha burguesa
com quem não há relação viável fora do casamento,
pois ela traz consigo herança, parentela, posição e
deveres. Vidinha, no plano da desordem, é a mulher
que se pode apenas amar, sem casamento nem deveres,
porque nada conduz além da sua graça e da sua
curiosa família sem obrigação nem sanção, onde todos
se arrumam mais ou menos conforme os pendores do
instinto e do prazer. É durante a fase dos amores
com Vidinha, ou logo após, que Leonardo se mete nas
encrencas mais sérias e pitorescas, como que
libertado dos projetos respeitáveis que o padrinho e
a madrinha tinham traçado para a sua vida.
Ora, quando o
"destino"o reaproxima de Luisinha, providencialmente
viúva, e ele retoma o namoro que levará direto ao
casamento, notamos que a tonalidade do relato não
fica mais aprovativa e, pelo contrário, que as
seqüências de Vidinha têm um encanto mais cálido.
Como Leonardo, o narrador parece aproximar-se do
casamento com a devida circunspecção, mas sem
entusiasmo.
Nessa altura,
comparamos a situação com tudo o que sabemos dos
seres no universo do livro e não podemos deixar de
fazer uma extrapolação. Dada a estrutura daquela
sociedade, se Luisinha pode vir a ser uma esposa
fiel e caseira, o mais provável é que Leonardo siga
a norma dos maridos e, descendo alegremente do
hemisfério da ordem, refaça a descida pelos círculos
da desordem, onde o espera aquela vidinha ou outra
equivalente, para juntos formarem um casal
suplementar, que se desfará em favor de novos
arranjos, segundo os costumes da família brasileira
tradicional. Ordem e desordem, portanto,
extremamente relativas, se comunicam por caminhos
inumeráveis, que fazem do oficial de justiça um
empreiteiro de arruaças, do professor de religião um
agente de intrigas, do pecado do Cadete a mola das
bondades do Tenente-Coronel, das uniões ilegítimas
situações honradas, dos casamentos corretos
negociatas escusas.
"Tutto nel mondo è
burla'-, cantam Falstaff e o coro, para resumir as
confusões e peripécias no final da ópera de Verdi.
"Tutto nel mondo è burla", parece dizer o narrador
das Memórias de um sargento de milícias,
romance que tem traços de ópera bufa. Tanto assim
(e chegamos ao segundo exemplo), que a conclusão
feliz é preparada por uma atitude surpreendente do
major Vidigal, que no livro é a encarnação da ordem,
sendo manifestação de uma consciência exterior,
única prevista no seu universo. De fato, a ordem
convencional a que obedecem os comportamentos, mas a
que no fundo permanecem indiferentes as
consciências, é aqui mais do que em qualquer outro
lugar o policial na esquina, isto é, Vidigal, com a
sua sisudez, seus guardas, sua chibata e seu
relativo fair-play.
Ele é delegado de
um mundo apenas entrevisto durante a narrativa,
quando a Comadre sai a campo para obter a soltura de
Leonardo Pataca. Como todos sabem, vai pedir a
proteção do Tenente-Coronel, membro da guarda
caricata de velhos oficiais, que cochilam numa sala
do Palácio Real. O Tenente-Coronel por sua vez
busca o empenho do Fidalgo (que vive com o seu
capote e os seus tamancos numa casa fria e mal
guarnecida), para que este fale ao Rei. O Rei, que
não aparece mas sobrepaira como fonte de tudo, é que
falará com Vidigal, instrumento da sua vontade. Mais
do que um personagem pitoresco, Vidigal encarna
toda a ordem; por isso, na estrutura do livro é um
fecho de abóboda e, sob o aspecto dinâmico, a única
força reguladora de um mundo solto, pressionando de
cima para baixo e atingindo um por um os agentes da
desordem. Ele prende Leonardo Pai na casa do
Caboclo e o Mestre de Cerimônias na da Cigana. Ele
ronda o baile do batizado de Leonardo Filho e
intervém muitos anos depois na festa de aniversário
de seu irmão, conseqüência de novos amores do pai.
Ele persegue Teotônio, desmancha o piquenique de
Vidinha, atropela o Toma-Largura, persegue e depois
prende Leonardo Filho, fazendo-o sentar praça na
tropa. O seu nome faz tremer e fugir.
Sendo assim, quando
a Comadre resolve obter o perdão do afilhado é a
Vidigal que pensa recorrer, por meio de uma nova
série de mediações muito significativas dessa
dialética da ordem e da desordem que se está
procurando sugerir. Modesta socialmente, enredeira
e complacente, reforça-se procurando a próspera Dona
Maria, que seria empenho forte para o representante
da lei, sempre accessível aos proprietários bem
situados. Mas Dona Maria vira habilmente o leme
para outra banda e recorre a uma senhora de costumes
que haviam sido fáceis, como se dizia quando eles
ainda eram difíceis. E é com a pura ordem de um
lado, encarnada em Dona Maria, e de outro a desordem
feita ordem aparente, encarnada em sua pitoresca
xará Maria Regalada, que a Comadre parte para
assaltar a cidadela ríspida, o Tutu geral, o
desmancha prazeres do Major.
A cena é digna de
um tempo que produziu Martins Pena. Toda a gente
lembra de que modo, para surpresa do leitor, Vidigal
é declarado "babão" e se desmancha de gosto entre as
saias das três velhotas. Como resistisse,
enfronhado na intransigência dos oficiais
conscienciosos, Maria Regalada o chama de lado e
lhe segreda qualquer coisa, com certeza alusiva a
alguma relação apetitosa no passado, quem sabe com
possibilidades de futuro. A fortaleza da ordem vem
abaixo ato contínuo e não apenas solta Leonardo,
mas dá-lhe o posto de sargento, que aparecerá no
título do romance e com o qual, já rformado na
segunda linha, casará triunfalmente com Luisinha,
enfeixando cinco heranças para dar maior solidez à
sua posição no hemisfério positivo.
Posição de tal modo
firme, que poderá, como sugerimos, baixar
eventualmente ao mundo agradável da desordem, agora
com o exemplo supremo do major Vidigal, que cedeu ao
pedido de uma dama galante apoiada por uma dama
capitalista, em suave conluio dos dois hemisférios,
por iniciativa de uma terceira dama, que circula
livremente entre ambos e poderia ser chamar, como
Belladona no poema de Eliot, "the lady of situations".
Ordem e desordem se articulam portanto solidamente;
o mundo hierarquizado na aparência se revela
essencialmente subvertido, quando os extremos se
tocam e a habilidade geral dos personagens é
justificada pelo escorregão que traz o major das
alturas sancionadas da lei para complacências
duvidosas com as camadas que ele reprime sem parar.
Há um traço
saboroso que funde no terreno do símbolo essas
confusões de hemisférios e esta subversão final de
valores. Quando as mulheres chegam à sua casa (Dona
Maria na cadeirinha, as outras se esbofando ao
lado), o major aparece de chambre de chita e
tamancos, num desmazelo que contradiz o seu aprumo
durante o curso da narrativa. Atarantado com a
visita, desfeito em risos e arrepios de erotismo
senil, corre para dentro e volta envergando a casaca
do uniforme, devidamente abotoada e luzindo em seus
galões, mas com as calças domésticas e os mesmos
tamancos batendo no assoalho. E assim temos o nosso
ríspido dragão da ordem, a consciência ética do
mundo, reduzido a imagem viva dos dois hemisférios,
porque nesse momento em que transgride as suas
normas ante a sedução da antiga e talvez de novo
amante, está realmente equiparado a qualquer dos
malandros que perseguia: aos dois Leonardos, a
Teotônio, ao Toma-Largura, ao Mestre de Cerimônias.
Como este, que, ao aparecer contraditoriamente de
solidéu e ceroulas no quarto da Cigana, misturava em
signos burlescos a majestade da Igreja e as doçuras
do pecado, ele agora é farda da cintura para cima,
roupa caseira da cintura para baixo -, encouraçando
a razão nas bitolas da lei e desafogando o plexo
solar nas indisciplinas amáveis.
Este traço dá o
sentido profundo do livro e do seu balanceio
caprichoso entre ordem e desordem. Tudo se arregla
então num plano mais significativo que o das normas
convencionais; e nós lembramos que o bom, o
excelente padrinho, se "arranjou" na vida
perjurando, traindo a palavra dada a um moribundo,
roubando aos herdeiros o ouro que o mesmo lhe
confiara. Mas este ouro não serviu para ele se
tornar um cidadão honesto e, sobretudo, prover
Leonardo? "Tutto nel mondo è burla".
É burla e é sério,
porque a sociedade que formiga nas Memórias é
sugestiva, não tanto por causa das descrições de
festejos ou indicações de usos e lugares; mas porque
manifesta num plano mais fundo e eficiente o
referido jogo dialético da ordem e da desordem,
funcionando como correlativo do que se manifestava
na sociedade daquele tempo. Ordem dificilmente
imposta e mantida, cercada de todos os lados por uma
desordem vivaz, que antepunha vinte mancebias a cada
casamento e mil uniões fortuitas a cada mancebia.
Sociedade na qual uns poucos livres trabalhavam e os
outros flauteavam ao Deus dará, colhendo as sobras
do parasitismo, dos expedientes, das munificiências,
da sorte ou do roubo miúdo. Suprimindo o escravo,
Manuel Antônio suprimiu quase totalmente o trabalho;
suprimindo as classes dirigentes, suprimiu os
controles do mando. Ficou o ar de jogo dessa
organização bruxuleante fissurada pela anomia, que
se traduz na dança dos personagens entre lícito e
ilícito, sem que possamos afinal dizer o que é um e
o que é o outro, porque todos acabam circulando de
um para outro com uma naturalidade que lembra o
modo de formação das famílias, dos prestígios, das
fortunas, das reputações, no Brasil urbano da
primeira metade do século XIX. Romance
profundamente social, pois, não por ser
documentário, mas por ser construído segundo o ritmo
geral da sociedade, vista através de um dos seus
setores. E sobretudo porque dissolve o que há de
sociologicamente essencial nos meandros da
construção literária.
Com efeito, não é a
representação dos dados concretos particulares que
poduz na ficção o senso da realidade; mas sim a
sugestão de uma certa generalidade, que olha para os
dois lados e dá consistência tanto aos dados
particulares do real quanto aos dados particulares
do mundo fictício. No esquema abaixo, sejam OD o
fenômeno geral da ordem e da desordem, como foi
indicado; AB os fatos particulares quaisquer da
sociedade joanina do Rio; A'B' os fatos particulares
quaisquer da sociedade descrita nas Memórias:

OD, dialética da
ordem e da desordem, é um princípio válido de
generalização, que organiza em profundidade tanto
AB quanto A'B', dando-lhes inteligibilidade, sendo
ao mesmo tempo real e fictício -, dimensão comum
onde ambos se encontram, e que explica tanto
um quanto outro. A'B' não vem diretamente de AB,
pois o sentimento da realidade na ficção pressupõe o
dado real mas não depende dele. Depende de
princípios mediadores, geralmente ocultos, que
estruturam a obra
e graças aos quais se tornam coerentes as duas
séries, a real e a fictícia.
Neste ponto,
percebemos que a estrutura do livro sofre a tensão
das duas linhas que constituem a visão do autor e se
traduzem em duas direções narrativas,
interrelacionadas de maneira dinâmica. De um lado, o
cunho popular introduz elementos arquetípicos, que
trazem a presença do que há de mais universal nas
culturas, puxando para a lenda e o irreal, sem
discernimento da situação histórica particular. De
outro lado, a percepção do ritmo social puxa para a
representação de uma sociedade concreta,
historicamente delimitada, que ancora o livro e
intensifica o seu realismo infuso. Ao realismo
incaracterístico e conformista da sabedoria e da
irreverência popular, junta-se o realismo da
observação social do universo descrito.
Talvez fosse possível dizer que a
característica peculiar das Memórias seja
devida a uma contaminação recíproca da série
arquetípica e da série social: a universalidade
quase folclórica evapora muito do realismo; mas,
para compensar, o realismo dá concreção e eficácia
aos padrões incaracterísticos. Da tensão entre
ambos decorre uma curiosa alternância de erupções do
pitoresco e de reduções a modelos socialmente
penetrantes, evitando o caráter accessório de
anedota, o desmando banal da fantasia e a
pretenciosa afetação, que comprometem a maior parte
da ficção brasileira daquele tempo.
5. O mundo sem
culpa
Diversamente de
quase todos os romances brasileiros do século XIX,
mesmo os que formam a pequena minoria dos romances
cômicos, as Memórias de um sargento de milícias
criam um universo que parece liberto do peso do erro
e do pecado. Um universo sem culpabilidade e mesmo
sem repressão, a não ser a repressão exterior que
pesa o tempo todo por meio do Vidigal e cujo
desfecho já vimos. O sentimento do homem aparece
nele como uma espécie de curiosidade superficial,
que põe em movimento o interesse dos personagens uns
pelos outros e do autor pelos personagens, formando
a trama das relações vividas e descritas. A esta
curiosidade corresponde uma visão muito tolerante,
quase amena. As pessoas fazem coisas que poderiam
ser qualificadas como reprováveis, mas fazem também
outras dignas de louvor, que as compensam. E como
todos têm defeitos, ninguém merece censura.
A madrinha levanta
um falso contra José Manuel, mas para ajudar a causa
simpática dos namorados; além disso José Manuel é um
patife. A compensação vem com a reação dele por
intermédio do Mestre de Reza -, Dom Basílio de
fancaria -, que consegue destruir a calúnia. As
coisas entram nos eixos, mas nós perguntamos se não
teria sido melhor deixar a calúnia de pé...
Como vimos, o
Compadre "se arranja" pelo perjúrio. Mas o narrador
só conta isto depois que a nossa simpatia já lhe
está assegurada pela dedicação que dispensou ao
afilhado. Para nós, ele é tão bom que o traço
sinistro não pode comprometê-lo. Tanto mais quanto
o ouro mal adquirido nada tem de maldito e se torna
uma das heranças que vão garantir a prosperidade de
Lenardo.
Um dos maiores
esforços das sociedades, através da sua organização
e das ideologias que a justificam, é estabelecer a
existencia objetiva e o valor real de pares
antitéticos, entre os quais é preciso escolher, e
que significam lícito ou ilícito, verdadeiro ou
falso, moral ou imoral, justo ou injusto, esquerda
ou direita política e assim por diante. Quanto mais
rígida a sociedade, mais definido cada termo e mais
apertada a opção. Por isso mesmo desenvolvem-se
paralelamente as acomodações de tipo casuístico, que
fazem da hipocrisia um pilar da civilização. E uma
das grandes funções da literatura satírica, do
realismo desmistificador e da análise psicológica é
o fato de mostrarem, cada um a seu modo, que os
referidos pares são reversíveis, não estanques, e
que fora da racionalização ideológica as antinomias
convivem num curioso lusco-fusco.
Pelo que vimos, o
princípio moral das Memórias parece ser,
exatamente como os fatos narrados, uma espécie de
balanceio entre o bem e o mal, compensados a cada
instante um pelo outro sem jamais aparecerem em
estado de inteireza. Decorre a idéia de simetria ou
equivalência, que, numa sociedade meio caótica,
restabelece incessantemente a posição por assim
dizer normal de cada personagem. Os extremos se
anulam e a moral dos fatos é tão equilibrada quanto
as relações dos homens.
De tudo se
desprende um ar de facilidade, uma visão folgada dos
costumes, que pode ou não coincidir com o que
ocorria "no tempo do Rei", mas que fundamenta a
sociedade instituída nas Memórias, como
produto de um discernimento coerente do modo de ser
dos homens. O remorso não existe, pois a avaliação
das ações é feita segundo a sua eficácia. Apenas um
personagem de segundo plano, o velho
Tenente-Coronel, tem a consciência pesada pelo
malfeito de seu filho, o Cadete, em relação à mãe do
"memorando"; e esta consciência pesada fica
divertida por contraste.
Se assim for, é
claro que a repressão moral só pode existir, como
ficou dito, fora das consciências. É uma "questão
de polícia" e se concentra inteiramente no major
Vidigal, cujo deslizamento cômico para as esferas da
transgressão acaba, no fim do romance, por baralhar
definitivamente a relação dos planos.
Nisto e por tudo
isto, as Memórias de um sargento de milícias
contrastam com a ficção brasileira do tempo. Uma
sociedade jovem, que procura disciplinar a
irregularidade da sua seiva para se equiparar às
velhas sociedades que lhe servem de modelo,
desenvolve normalmente certos mecanismos ideais de
contensão, que aparecem em todos os setores. No
campo jurídico, normas rígidas e impecavelmente
formuladas, criando a aparência e a ilusão de uma
ordem regular que não existe e que por isso mesmo
constitui o alvo ideal. Em literatura, gosto
acentuado pelos símbolos repressivos, que parecem
domar a eclosão dos impulsos. É o que vemos, por
exemplo, no sentimento de conspurcação do amor, tão
freqüente nos ultra-românticos. É o que vemos em
Peri, que se coíbe até negar as aspirações que
poderiam realizá-lo como ser autônomo, numa renúncia
que lhe permite construir em compensação um ser
alienado, automático, identificado aos padrões
ideais da colonização. N'O Guarani, a força
do impulso vital, a naturalidade dos sentimentos, só
ocorre como característica dos vilões ou,
sublimados, no quadro exuberante da natureza -, isto
é, as forças que devem ser dobradas pela civilização
e a moral do conquistador, das quais D. Antônio de
Mariz é um paradigma e o índio romântico um homólogo
ou um aliado. (Lembremos o "índio tocheiro. O índio
filho de Maria , afilhado de Catarina de Médicis e
genro de D. Antônio de Mariz", do Manifesto
antropófago, de Oswald de Andrade). Repressão
mutiladora da personalidade é ainda o que
encontramos noutros romances de Alencar, os chamados
urbanos, como Lucíola e Senhora, onde
a mulher opressa da sociedade patriarcal confere ao
enredo uma penumbra de forças recalcadas. Em meio de
tudo, a liberdade quase feérica do espaço ficcional
de Manuel Antônio, livre de culpabilidade e remorso,
de repressão e sanção interiores, colore e mobiliza
o firmamento do Romantismo, como os rojões do "Fogo
no Campo"ou as baianas dançando nas procissões.
Graças a isto, se
diverge do superego habitual de nossa novelística,
efetua uma espécie de desmistificação que o aproxima
das formas espontâneas de vida scial, articulando-se
com elas de modo mais fundo. Façamos um paralelo
que talvez ajude.
Na formação
histórica dos Estados Unidos houve desde cedo uma
presença constritora da lei, religiosa e civil, que
plasmou os grupos e os indivíduos, delimitando os
comportamentos graças à força punitiva do castigo
exterior e do sentimento interior de pecado. Daí
uma sociedade moral, que encontra no romance
expressões como A Letra escarlate, de
Nathanael Hawthorne, e dá lugar a dramas como o das
feiticeiras de Salem.
Esse endurecimento do grupo e do indivíduo confere a
ambos grande força de identidade e resistência; mas
desumaniza as relações com os outros, sobretudo os
indivíduos de outros grupos, que não pertencem à
mesma lei e, portanto, podem ser manipulados
ao bel-prazer. A alienação torna-se ao mesmo tempo
marca de reprovação e castigo do réprobo; o duro
modelo bíblico do povo eleito, justificando a sua
brutalidade com os não-eleitos, os outros,
reaparece nessas comunidades de leitores quotidianos
da Bíblia. Ordem e liberdade - isto é,
policiamentos internos e externos, direito de
arbítrio e de ação violenta sobre o estranho -, são
formulações desse estado de coisas.
No Brasil, nunca os grupos ou os indivíduos
encontraram efetivamente tais formas; nunca tiveram
a obsessão da ordem senão como princípio abstrato,
nem da liberdade senão como capricho. As formas
espontâneas da sociabilidade atuaram com maior
desafogo e por isso abrandaram os choques entre a
norma e a conduta, tornando menos dramáticos os
conflitos de consciência.
As duas situações diversas se ligam ao mecanismo das
respectivas sociedades: uma que, sob alegação de
enganadora fraternidade, visava a criar e manter um
grupo idealmente mono-racial e mono-religioso; outra
que incorpora de fato o pluralismo racial e depois
religioso à sua natureza mais íntima, a despeito de
certas ficções ideológicas postularem inicialmente
o contrário. Não querendo constituir um grupo
homogêneo e, em consequência, não precisando
defendê-lo asperamente, a sociedade brasileira se
abriu com maior larguesa à penetraçao dos grupos
dominados ou estranhos. E ganhou em flexibilidade o
que perdeu em inteireza e coerência.
O sentido profundo das Memórias está ligado
ao fato de não se enquadrarem em nenhuma das
racionalizações ideológicas reinantes na literatura
brasileira de então: indianismo, nacionalismo,
grandeza do sofrimento, redenção pela dor, pompa do
estilo etc. Na sua estrutura mais íntima e na sua
visão latente das coisas, este livro exprime a vasta
acomodação geral que dissolve os extremos, tira o
significado da lei e da ordem, manifesta a
penetração recíproca dos grupos, das idéias, das
atitudes mais díspares, criando uma espécie de
terra-de-ninguém moral, onde a transgressão é apenas
um matiz na gama que vem da norma e vai ao crime.
Tudo isso porque, não manifestando estas atitudes
ideológicas, o livro de Manuel Antônio é talvez o
único em nossa literatura do século XIX que não
exprime uma visão de classe dominante.
Este fato é evidenciado pelo seu estilo, que se
afasta da linguagem preferida no romance de então,
buscando uma tonalidade que se tem chamado de
coloquial. Pelo fato de ser um principiante sem
compromissos com a literatura estabelecida, além de
resguardado pelo anonimato, Manuel Antônio ficou à
vontade e aberto para as inspirações do ritmo
popular. Esta costela trouxe uma espécie de
sabedoria irreverente, que é pré-crítica, mas que,
pelo fato de reduzir tudo à amplitude da "natureza
humana", se torna afinal mais desmistificadora do
que a intenção quase militante de um Alencar -,
mareada pelo estilo de classe. Sendo neutro, o
estilo encantador de Manuel Antônio fica translúcido
e mostra o outro lado de cada coisa, exatamente
como o balanceio de certos períodos. "Era a
comadre uma mulher baixa, excessivamente gorda,
bonachona, ingênua ou tola até um certo ponto, e
finória até outro". "O velho tenente-coronel,
apesar de virtuoso e bom, não deixava de ter na
consciência um sofrível par de pecados". Daí a
equivalência dos opostos e a anulação do bem e do
mal, num discurso desprovido de maneirismo. Mesmo
em livro tão voluntariamente crítico e social
quanto Senhora, o estilo de Alencar acaba
fechando a porta ao senso da realidade, porque tende
à linguagem convencional de um grupo restrito,
comprometido com uma certa visão do mundo; e ao
fazê-lo, sofre o peso da sua data, fica preso demais
às contingências do momento e da camada social,
impedindo que os fatos descritos adquiram
generalidade bastante para se tornarem
convincentes. Já a linguagem de Manuel Antônio,
desvinculada da moda, torna amplos, significativos e
exemplares os detalhes da realidade presente, porque
os mergulha no fluido do populário -, que tende a
matar lugar e tempo, pondo os objetos que toca além
da fronteira dos grupos. É pois no plano do estilo
que se entende bem o desvinculamento das Memórias
em relação à ideologia das classes dominantes do seu
tempo -, tão presente na retórica liberal e no
estilo florido dos "beletristas". Trata-se de uma
libertação, que funciona como se a neutralidade
moral correspondesse a uma neutralidade social,
misturando as pretensões das ideologias no balaio da
irreverência popularesca.
Esta se articula com uma atitude mais ampla de
tolerância corrosiva, muito brasileira, que
pressupõe uma realidade válida para lá, mas também
para cá da norma e da lei, manifestando-se por vezes
no plano da literatura sob a forma de piada
devastadora, que tem certa nostalgia indeterminada
de valores mais lídimos, enquanto agride o que,
sendo hirto e cristalizado, ameaça a labilidade, que
é uma das dimensões fecundas do nosso universo
cultural.
Essa comicidade foge às esferas sancionadas da norma
burguesa e vai encontrar a irreverência e a
amoralidade de certas expressões populares. Ela se
manifesta em Pedro Malasarte no nível folclórico e
encontra em Gregório de Matos expressões rutilantes,
que reaparecem de modo periódico, até alcançar no
Modernismo as suas expressões máximas, com
Macunaíma e Serafim Ponte Grande. Ela
amaina as quinas e dá lugar a toda a sorte de
acomodações (ou negações), que por vezes nos fazem
parecer inferiores ante uma visão estupidamente
nutrida de valores puritanos, como a das sociedades
capitalistas; mas que facilitará a nossa inserção
num mundo eventualmente aberto.
Com muito menos virulência e estilização que os dois
livros citados, o de Manuel Antônio pertence a um
entroncamento dessa linha, que tem várias
modalidades. Nem é de espantar que só depois do
Modernismo encontrasse finalmente a glória e o favor
dos leitores, com um ritmo de edições que nos
últimos vinte e cinco anos ultrapassa uma por ano,
em contraste com o anterior, de uma cada oito anos.
Na limpidez transparente do seu universo sem culpa,
entrevemos o contorno de uma terra sem males
definitivos ou irremediáveis, regida por uma
encantadora neutralidade moral. Lá não se trabalha,
não se passa necessidade, tudo se remedeia. Na
sociedade parasitária e indolente, que era a dos
homens livres do Brasil de então, haveria muito
disto, graças à brutalidade do trabalho escravo, que
o autor elide junto com outras formas de violência.
Mas como ele visa ao tipo e ao paradigma, nós
vislumbramos através das situações sociais concretas
uma espécie de mundo arquetípico da lenda, onde o
realismo é contrabalançado por elementos
brandamente fabulosos: nascimento aventuroso, numes
tutelares, dragões, escamoteação da ordem econômica,
inviabilidade da cronologia, ilogicidade das
relações. Por isso, tomemos com reserva a idéia de
que as Memórias são um panorama documentário
do Brasil joanino; e depois de ter surgido que são
antes a sua anatomia espectral, muito mais
totalizadora, não pensemos nada e deixemo-nos
embalar por essa fábula realista composta em tempo
de allegro vivace.